Nesta quarta-feira, 18 de fevereiro, será realizada a audiência de conciliação promovida pelo ditador no Tribunal de Primeira Instância de Catarroja (Valência). Teodoro Obiang Nguema Mbasogo contra Lagar Orlando Cartagena, Primeiro-Ministro da República de Anobon.
O ditador da Guiné Equatorial — que não comparecerá pessoalmente — será representado por seu procurador-geral. Laura Argentina Gómez Molina, sob o patrocínio do antigo magistrado do Audiência Nacional Javier Gomez BermudezA ação foi ajuizada em 6 de outubro de 2025 e constitui a etapa preliminar obrigatória antes de uma possível denúncia criminal por calúnia e difamação.
Originalmente agendada para janeiro, a audiência foi remarcada para esta semana devido a problemas com a notificação formal, conforme consta nos documentos judiciais anexados a este artigo.
Uma tentativa de silenciamento
Em sua solicitação, Obiang exige que Cartagena:
- Ele retratou publicamente suas declarações.
- Reconheça que as acusações feitas são falsas.
- Publique a correção nos mesmos canais onde você fez as declarações.
- Pagar uma indenização de 1.000.000 de euros por alegados danos à reputação.
- Considere os custos do processo, estimados em 5.000 euros.
O representante do povo annobonense declarou que todas as exigências seriam rejeitadas categoricamente, e que a defesa do ditador prosseguiria com uma queixa-crime na Espanha.
Na perspectiva annobonesa, a mediação facilitada pelo regime da Guiné Equatorial não é uma simples formalidade legal, mas uma estratégia de pressão destinada a mudar o foco do debate: das acusações de violações sistemáticas dos direitos humanos para uma discussão criminal sobre a suposta honra do ditador que há mais tempo está no poder no mundo.
Cartagena, exilado na Espanha desde a década de 1990 e carpinteiro de profissão, não recebe salário por sua função política. O contraste entre a estrutura estatal que apoia o líder africano e a situação pessoal do líder annobonense reforça a dimensão política do conflito.
O contexto internacional
A audiência coincide com uma ofensiva jurídica lançada pela República de Annobón em nível internacional. Vale lembrar que, em agosto de 2025, durante uma visita à Argentina, Cartagena apresentou uma denúncia ao Tribunal Federal alegando crimes contra a humanidade, invocando o princípio da jurisdição universal. A denúncia sustenta que existe um padrão sistemático de perseguição contra o povo annoboniano desde 1968.
Diversos relatórios internacionais, incluindo relatórios de Organização das Nações Unidas, Anistia Internacional y Acesse agoraEles documentaram violações dos direitos humanos no país africano, um contexto que enquadra a disputa.
Davi contra Golias, no tribunal
A cena evoca novamente a metáfora clássica: de um lado, um chefe de Estado que governou por mais de quatro décadas e está lançando uma ofensiva judicial na Europa, entrincheirado em sua cadeira localizada na nova capital; do outro, um carpinteiro que se tornou o representante de um povo maltratado durante séculos.
O que está sendo decidido nesta quarta-feira não é meramente um acordo extrajudicial prévio a um processo judicial. Está em jogo também a credibilidade institucional do sistema judiciário espanhol diante de uma alegação que transcende o âmbito estritamente pessoal da honra. A audiência testará como o sistema de justiça responde a uma ação movida por um ditador que invoca a defesa de sua reputação enquanto enfrenta acusações internacionais de graves violações dos direitos humanos.
O significado simbólico do evento vai além das partes envolvidas: levanta questões sobre o delicado equilíbrio entre proteger a honra e salvaguardar a liberdade de expressão ao lidar com acusações ligadas a assuntos de importância política pública e internacional. A audiência será, em última análise, um ponto de virada em uma disputa que já ultrapassou fronteiras e dificilmente será resolvida em um tribunal de Valência.




