O Primeiro-Ministro da República de AnobonOrlando Cartagena Lagar chegou ao Paraguai como parte de uma turnê internacional para denunciar à região o "genocídio lento", a repressão militar e a aniquilação da identidade sofrida pela ilha sob o regime da Guiné Equatorial. Em entrevista à RTV Paraguai, conduzida pelo jornalista [nome omitido], ele afirmou... Mario CasartelliO líder annobonense descreveu de forma contundente a situação humanitária e reafirmou a principal reivindicação de seu povo: a independência total.
“Annobón não fica na Guiné Equatorial. Fica no Oceano Atlântico e foi subjugada por uma decisão política. Lutamos para dar visibilidade à nossa causa e buscar a nossa liberdade”, começou Cartagena Lagar, destacando o contexto histórico do conflito.
Quando questionado sobre os motivos da visita, ele foi direto: “Buscamos reconhecimento como um país independente, por nossa soberania, por nossa liberdade. Fazemos parte do Vice-Reino do Rio da Prata desde 1778 (...) e esse tratado permanece em vigor até hoje”, afirmou.
O primeiro-ministro explicou que o projeto político do povo Ambô é claro: “O projeto é Ambô LegaduO projeto visa um Annobón livre. Romper completamente os laços com a Guiné Equatorial. Não temos nada em comum com esse país criado em 1968.
E acrescentou uma de suas declarações mais contundentes: “Este país de criação colonial está literalmente nos matando. Temos sofrido um genocídio lento desde 1968. É uma aniquilação de identidade.”
Estupro, militarismo e limpeza étnica
Durante a entrevista, Cartagena Lagar detalhou violações gravíssimas dos direitos humanos:
– Enviar militares para a ilha “com a missão de estuprar meninas para destruir nossa cultura e nossa tradição”.
– Tentativa sistemática de substituir a população Ambô trazendo grupos externos para a ilha.
– Desaparecimentos forçados e perseguições: “Obiang ordenou o sequestro de mais de 42 pessoas que estavam desaparecidas há quase um ano.”
Ele também denunciou a crise educacional e a deportação clandestina: “Em Annobón não há escola para crianças com mais de doze anos. É uma deportação forçada. Estão nos obrigando a deixar nossa ilha.”
A população estimada atualmente — segundo Cartagena Lagar — é de apenas 3 pessoas na ilha e cerca de 20 em todo o mundo.
Um testemunho pessoal marcado pela tortura.
O primeiro-ministro também relatou sua própria prisão em 1993, quando o exército da Guiné Equatorial respondeu violentamente a uma manifestação estudantil: “Eles me submeteram a todos os tipos de tortura… amarraram minhas mãos e pés, me penduraram em uma árvore e um soldado pulou nas minhas costas até que eu perdesse a consciência”.
Ele foi inicialmente condenado à morte e depois a vinte e oito anos de prisão, até que a pressão internacional garantiu sua libertação.
Recursos, história e resiliência
Cartagena Lagar também abordou os recursos naturais da ilha: importantes áreas de pesca, especialmente de atum; diversidade marinha e reservas de petróleo.
Mas ele foi claro: “O recurso natural mais importante de Annobón é o próprio povo annobonense, que continua a resistir após seis séculos”. Ele também exibiu o Kiskabelu, um símbolo cultural do diálogo Ambô: “Este assento é o nosso elemento de entendimento. Erguemo-lo pedindo ajuda, reconhecimento e apoio internacional para salvar o nosso povo”.
No final da entrevista, ele fez um apelo urgente: “Estamos em uma emergência humanitária e de saúde. Há um programa de extermínio e limpeza étnica em curso. Não temos gente suficiente para resistir por muito mais tempo.”
E concluiu com uma mensagem direta ao país anfitrião: “Pedimos ajuda ao Paraguai e ao mundo. Vejam esse nosso lado humano. Precisamos sair do inferno em que nos colocaram há 56 anos.”




