O Caso Annobón esteve presente na Conferência UNPO 2025, em Portugal: "Viemos exigir justiça histórica".

A anobonesa Paulina Laurel Muñoz.

O primeiro ministro Lagar Orlando Cartagena Ele liderou a delegação annobonesa juntamente com os cidadãos Paulina Laurel Muñoz, que foi responsável por proferir o comovente discurso oficial para representantes de povos não representados ao redor do mundo.

Ontem à tarde, o República de Anobon participou ativamente da conferência anual da Organização das Nações e Povos Não Representados (UNPO), realizada na cidade do Funchal, no arquipélago português da Madeira. O evento aconteceu no Hotel Quinta Palmeira, localizado numa zona residencial de grande altura da capital — de onde se avista grande parte da cidade — rodeada de jardins e palmeiras, e de fácil acesso para turistas.

Orlando Cartagena Lagar com a chefe da UNPO, Rubina Greenwood.

Representando o povo anobonês, o Primeiro-Ministro Lagar Orlando Cartagena compareceu à abertura oficial e dividiu espaço com a presidente da UNPO, Rubina Greenwood, bem como com delegações de várias nações africanas e outros povos não representados do mundo.

A voz de Annobón ficou a cargo de Paulina Laurel Muñoz, um conterrâneo anobonês residente no exterior, que fez um discurso que emocionou os presentes e expôs a grave situação que a ilha vive. Abaixo está a versão literal da mensagem lida em espanhol durante o evento:

Annobon: Autodeterminação silenciada no coração do Atlântico Sul. Distintos membros da UNPO, delegados.

Falo em nome de um povo que o mundo esqueceu: Annobon. Uma pequena ilha africana, marginalizada, explorada, invisível. Colonizados por Portugal, transferidos como mercadoria para a Espanha e hoje presos em uma estrutura estatal que nega nossa voz, nossa língua, nossa dignidade.

Não somos uma minoria: somos um povo. Com identidade, com história, com direito de decidir. O que sofremos não é apenas abandono, é uma forma moderna de neocolonialismo que nega nossa participação, distorce nossa cultura e nos relega ao silêncio.

Neste segundo ano como membros da UNPO, não estamos aqui para pedir caridade, estamos aqui para exigir justiça histórica. A descolonização não terminou nas bandeiras europeias: ela continua hoje em nossos corpos, em nossas ilhas, em nossas línguas.

Como você sabe, a causa de Annobon não é única. Assim como nós, muitos povos africanos continuam presos em estruturas impostas, em sistemas políticos que não reconhecem sua diversidade nem seu direito de decidir seu destino. O que nos une não é apenas a dor, mas a esperança ativa por justiça.

Por isso, nós da Annobón propomos que a UNPO se torne a estrutura de um espaço permanente de diálogo entre as nações africanas aqui representadas. Um fórum onde podemos compartilhar nossas lutas, coordenar nossas estratégias e consolidar uma voz coletiva para o mundo.

Porque a autodeterminação não é um privilégio: é um direito. E quando esse direito é sistematicamente negado aos povos do Sul Global, devemos nos organizar, ouvir e apoiar uns aos outros.

Acreditamos que, unidos, podemos abrir caminhos onde eles estão fechados para nós. Podemos articular soluções comuns para problemas compartilhados: da repressão política à perda de nossas línguas, da exploração de nossos territórios à invisibilidade internacional.

Annobón estende sua mão fraterna a todas as delegações africanas presentes. Sonhamos com um continente onde nenhum povo tenha que implorar por reconhecimento ou defender sua existência com medo.

Como disse Aimé Césaire: “Não há dignidade sem memória”. Viemos restaurar os nossos.

Ambos Legadu, Ambos Legadu, Ambos Legadu.

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